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Comunicação no relacionamento: por que deixamos de compreender o outro?

20 de outubro de 2026 Casais e famílias 5 min de leitura

A comunicação está presente em todos os relacionamentos, inclusive nos momentos de silêncio. Mas o que acontece quando deixamos de ouvir o outro com curiosidade e passamos a acreditar que já sabemos tudo o que ele pensa ou sente?

Comunicação no relacionamento: por que deixamos de compreender o outro?

É impossível não comunicar

Ao começar a pensar no tema comunicação, logo me ocorre um dos axiomas da comunicação proposto por Paul Watzlawick no seu livro Pragmática da Comunicação Humana, que é: “É impossível não comunicar”.

Mas o que exatamente isso quer dizer? Simples, todo o comportamento está sempre comunicando alguma coisa, e um indivíduo não pode não se comportar, por isso a não comunicação não existe.

Sugestão de parágrafo (retirando o texto de Watzlawick - Como nos lembra Watzlawick, a atividade, a inatividade, as palavras e o silêncio possuem valor de mensagem. Ao influenciarmos o outro, também recebemos respostas que, por sua vez, constituem novas formas de comunicação. Afinal, quem nunca ouviu a frase: quem cala consente?

A comunicação nas relações humanas

Bem, entendendo que a comunicação sempre acontece de uma forma ou de outra, podemos agora procurar entender em que contexto ela ocorre. Poderíamos dizer que a essência da comunicação reside nos processos relacionais e interrelacionais.

As relações humanas estão imersas em processos comunicacionais, mas será que nos damos conta que mesmo que não queiramos estamos nos comunicando, passando alguma mensagem para o outro ao nosso lado?

Como terapeuta com experiência no atendimento de casais percebo o quanto que os conflitos trazidos ao meu consultório por casais ou mesmo por indivíduos sozinhos têm a ver com a comunicação que se está estabelecendo nestas relações.

Quando perdemos a curiosidade sobre o outro

Um fator que percebo no relacionamento dos casais que atendo e que, a meu ver, compromete a comunicação no casal é a perda de curiosidade sobre o outro.

É verdade que com o tempo acabamos por afinar a nossa percepção do outro, o que pode ter muitos aspectos positivos, como por exemplo saber programar uma noite romântica com tudo que o seu parceiro mais gosta ou identificar claramente os sinais de indisposição de seu parceiro e não insistir em algum assunto ou programa que naquele momento pode acabar em briga.

Sugestão de parágrafo- É verdade que com o tempo acabamos por afinar a nossa percepção do outro, o que pode ter muitos aspectos positivos. Podemos, por exemplo saber programar uma noite romântica com tudo que o seu parceiro mais gosta ou identificar claramente os sinais de indisposição de seu parceiro e não insistir em algum assunto ou programa que naquele momento pode acabar em briga.

Porém, quando achamos que conhecemos o outro mais do que ele próprio, que somos capazes de interpretar todas as suas mensagens sem a ajuda dele, ou seja, que o outro se tornou tão previsível que a minha curiosidade sobre suas atitudes e comportamento chegou no nível zero, bem, aí sim, começam os problemas...

O diálogo interno e as interpretações

Observo que os indivíduos que chegam nesse nível nas suas relações desenvolvem o que eu chamaria de um diálogo interno muito mais intenso que o diálogo e a troca com o outro.

Esse diálogo interno se faz entre nós e nosso “arquivo de conhecimento do outro” que temos registrado em nosso íntimo depois de tantos anos de convivência. Uma atitude, um comportamento, um olhar, já pode ser decifrado por mim de acordo com meu “arquivo de conhecimento do outro” sem precisar perguntar nada ao meu parceiro.

Reparem que os casais com pouco tempo de relacionamento estão muito mais abertos para conhecer o outro, têm muito mais curiosidade e a troca na relação acontece com muito mais vivacidade.

Entretanto, mesmo com muitos anos de relacionamento, devemos pensar que nunca saberemos tudo sobre a outra pessoa, nada é tão óbvio assim.

O nosso conhecimento do outro deve ser nosso aliado no relacionamento, algo que nos ajuda a ter sensibilidade para as necessidades de quem está ao nosso lado, e nunca algo que nos distancia do outro a ponto de desenvolvermos mais o diálogo interno do que o diálogo na relação.

O que falamos e como falamos

Neste ponto me ocorre outro axioma apresentado por Paul Watzlawick e que também considero fundamental ser observado nos processos comunicacionais, que é o fato de a comunicação ser de dois tipos:

  • Comunicação digital: tem a ver com o conteúdo da informação, é objetiva e precisa.

  • Comunicação analógica: tem a ver com a relação, a forma, é mais ambígua e subjetiva.

Simplificando, nós poderíamos dizer que toda comunicação tem algo que é falado (digital) e como é falado (analógico).

Nas relações muitas vezes nos descuidamos da forma e nos preocupamos apenas com o conteúdo. É interessante pensarmos que a comunicação analógica pode muitas vezes facilitar a comunicação digital, como por exemplo falar coisas difíceis de uma forma que o outro consiga ouvir.

Aprender a falar também é aprender a cuidar

Lembro-me de uma mestre minha muito querida que falava sempre: “Precisamos aprender a falar cantando...”

Para que o que temos a dizer para o outro, seja de que natureza for, chegue aos seus ouvidos como uma melodia.

Outro ensinamento precioso a este respeito é que precisamos aprender a falar o NÃO da mesma forma que falamos o SIM.

Ao cuidarmos da forma como nossas mensagens chegam no outro estamos cuidando de nós e do outro, isto é, da relação.

A importância de cuidar da comunicação

É incrível como algo que simplesmente acontece o tempo todo na vida das pessoas, que é o comunicar-se, pode ter aspectos tão sutis, diria até mesmo quase que imperceptíveis, mas com um impacto tremendo nas relações.

Que este texto tenha ajudado a ampliar a consciência de que é impossível não comunicar, a importância de resgatar a curiosidade pelos comportamentos do outro nas relações do dia a dia, e possibilitar o cuidado do conteúdo e da forma nas comunicações nos relacionamentos.

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